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13/05/2016

Pedro Rosário: uma Kombi, meus livros e nada mais

Livraria ambulante leva cultura a população de forma inusitada e divertida

Não demorou muito tempo para que um homem alto, de cabelos compridos e barba aparecesse na mesa em que eu estava sentada. Sério, mas muito educado e aberto a conversa, recebi o professor Pedro Rosário em uma cafeteria que foi inaugurada recentemente na cidade. Escolha dele, inclusive. Chegamos à conclusão de que café e um bom livro são uma ótima combinação.

Apaixonado. Essa é uma palavra que o define muito bem. Desde pequeno ele sempre foi amante dos livros. Influenciado pelos pais, ele teve contato com as palavras desde criança. A família dele é toda de Itapira, mas precisaram se mudar da cidade por um tempo.

Em 2011, ao retornar a Itapira, ele sentiu uma frustração enorme por não existir nenhuma livraria por aqui e nem na região. “A gente até tinha uma livraria lá no shopping Buriti, em Mogi Guaçu, mas não era uma coisa muito grande”.

Rosário se anima quando o assunto é seu projeto “Livrando”, uma Kombi personalizada que durante os fins de semana fica no centro da cidade e até em algumas escolas vendendo livros. Pedro é aquele cara sem meias palavras, mas quando o assunto são as letras, é nítido em seus olhos um brilho a mais.

Conversa vem, conversa vai, Pedro explica o porquê escolheu usar uma Kombi e não abrir uma livraria na cidade “Eu sempre gostei de Kombi, e com a ajuda dos meus pais, consegui comprar uma já usada. Além de quê, conversei com uma das donas de uma livraria que funcionou por pouquíssimo tempo aqui e ela me contou que só deu gastos, porque quase ninguém frequentava. Então, pensei em fazer algo diferente, que interessasse as pessoas a quererem ler. ”

Livrando em plena praça Bernardino de Campos, em Itapira, durante uma das edições do Sarau Cultural (Foto: Bárbara Cintra)

A ideia é recente. Ele conta que para ter permissão de ficar na rua e estacionado na Praça Bernardino de Campos, foi necessário um alvará da Prefeitura de Itapira, além do apoio fundamental da Secretaria de Cultura e Turismo da cidade.

Na Kombi é vendido de tudo: desde os “bests – sellers” a livros que Rosário adora, como Saramago de “Ensaio sobre a cegueira”, Garcia Márquez, Lorenço Mutarelli, entre outros. Rosário ainda pretende daqui algum tempo colocar à venda camisetas literárias, azulejos com frases e outros produtos relacionados a literatura.

Com o passar do tempo, a ideia foi tomando corpo. Hoje, ele realiza contação de histórias e oficina de escrita criativa. Rosário também conseguiu parceria com algumas editoras que mandam autores para rolar sessão de autógrafos, fazer palestras “Além de toda essa ideia da livraria, que já é bastante coisa, existe também esse lado cultural a mais”. E segundo Rosário não é apenas a divulgação literária que é fraca na região, é a cultura em si que é pouco incentivada. Um bom começo para essa realidade mudar é dentro de casa.

Rosário relata que as parcerias para o projeto continuar vêm crescendo aos poucos, embora essa divulgação de cultura literária na região seja fraca. Além do apoio familiar e da namorada que sempre o acompanha, Letícia Souto, que participa do projeto “Maquina do Mundo” – uma ação em que os jovens vestem - se de palhaços e saem pelas ruas com cartazes inusitados, como “Me dá um abraço”, além de distribuir poesias para os que vão passando nas ruas - colabora contando histórias para as crianças.

O professor conta com saudade que também fez artes cênicas, mas que esse lado mais artístico dele adormeceu e que ter descoberto essa qualidade em Letícia, que além de participar da Máquina do Mundo foi aluna de Pedro na escola, foi muito interessante. “Quem sabe daqui um tempo eu também não acorde esse Pedro artístico que existe. É para se pensar. ”

O professor comenta sobre a facilidade existente na atualidade de se publicar um livro, ainda mais com o avanço da internet. Plataformas como Widbook e Amazon tem dado uma oportunidade maior para quem é tão apaixonado pelas letras a ponto de querer coloca – las no papel. Mas infelizmente o processo de lançamento de um livro na sua grande maioria não é viável a qualquer pessoa. Essas plataformas têm transformado essa realidade, oferecendo publicação até gratuita aos jovens escritores. “Eu acho muito interessante essas portas que são abertas para aqueles que desejam ter um livro publicado, ainda que seja por hobby”.

Para o futuro, Pedro Rosário pretende alcançar mais escolas, porque foi uma ideia que deu certo. Também pretende fechar mais parcerias com outras editoras.

Com um brilho nos olhos, ele diz que a reação das crianças é a mais interessante com relação ao livrando “É uma coisa que vale muito a pena, é mágico o brilho nos olhos deles, essa empolgação que infelizmente com o passar dos anos não encontramos nos jovens de hoje. ”

O professor apaixonado pelo projeto e pela literatura mora em Itapira, mas já não dá mais aulas na cidade . É professor no colégio Anglo de Mogi Guaçu e Objetivo de Monte Sião e Socorro. Ele consegue se dedicar a Kombi apenas nos finais de semana.

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